Vejo os homens, parecem árvores a andar (Mc 8,24). Estas palavras, entre as mais enigmáticas e profundas do Evangelho de São Marcos, nascem do encontro de Jesus com um cego em Betsaida. O episódio apresenta um milagre realizado em dois momentos: primeiro uma visão imperfeita, depois a clareza total do olhar. Não se trata apenas de uma cura física, mas da descrição de um caminho interior, que revela o modo gradual como a fé amadurece.
Jesus toma o cego pela mão, leva-o para fora do povoado, toca-o e perguntá-lhe: “Estás a ver alguma coisa?” O homem responde com honestidade, percebe formas, todavia não reconhece os rostos. Vê, mas ainda não vê de verdade. Só depois de um segundo toque de Jesus é que os seus olhos abrem-se completamente e ele “via todas as coisas com nitidez, mesmo de longe” (Mc 8,25). É a experiência de uma visão que nasce pouco a pouco, como acontece muitas vezes na vida espiritual.
Esta página do Evangelho ilumina também a nossa realidade actual e, de modo particular, a situação social Angolana.
Em Angola, encontramos diariamente homens e mulheres marcados pela fome, por salários muito baixos, pelo desemprego, por casas sem condições dignas, por bairros sem água potável, por falta de saneamento e por doenças endémicas que se agravam num sistema de saúde frágil. Cresce igualmente o número de crianças nas ruas, devido à negligência daquilo que deveria ser paternidade responsável, os homens apenas plantam sementes sem qualquer pretação de vê-las crescer e atribuem o cuidado apenas às mulheres, como se os filhos fossem apenas delas. Além disso, os sinais de uma corrupção generalizada manifestam-se sem pudor, enquanto os efeitos da guerra ainda se fazem ver e sentir nas cidades devastadas e nos povos maltratados. Tudo isto está diante dos nossos olhos. E, mesmo assim, nem sempre o vemos.
Pouco antes do Natal do ano passado, vi um jovem senhor a alimentar-se do lixo, como quem tenta salvar a própria vida. O escândalo não é a fome, mas a indiferença social que a torna normal. Como ele, muitos preferem enfrentar doenças a morrer de estômago vazio. Todos os dias, diante dos nossos olhos, pessoas mutiladas arrastam-se pelo chão, sob o sol escaldante, sem dignidade, sem assistência, sem sequer uma cadeira de rodas. Esta miséria não é invisível; é ignorada.
Por que continuamos a “ver os homens como árvores”?
Porque a cegueira do nosso tempo não é apenas física, todavia, trata-se de uma cegueira interior que nasce das distrações constantes, do barulho das redes sociais, da pressa diária, do interesse exagerado pelo corpo, pela imagem, pelo aparecer. Uma cegueira alimentada por um certo comodismo que nos torna insensíveis à dor dos outros.
Vemos multidões, mas não pessoas. Vemos problemas, porém não rostos. O nosso olhar fica desfocado, semelhante ao do cego de Betsaida: formas sem identidade, presenças sem história.
O episódio de São Marcos provoca a cada um de nós. Recorda-nos que podemos ter encontrado Jesus, ter sido tocados por Ele nos sacramentos, na oração e na vida da comunidade e, mesmo assim, ver apenas de forma incompleta. É a situação de muitos baptizados: participam da Eucaristia, vivem a fé com regularidade, contudo ainda não se deixaram tocar em profundidade pelo Senhor.
Por isso, muitas vezes, os outros continuam a aparecer-nos como “árvores a andar”: figuras distantes, indistintas, sem o brilho da sua verdadeira dignidade humana.
O Evangelho chama-nos a um segundo toque: uma cura plena do olhar, que nos permita reconhecer no outro um irmão, alguém que traz em si a presença de Deus.
Neste contexto de crise social, económica e humana, a missão paulina em Angola assume um valor particular. A nossa vocação é difundir a luz, ajudar a purificar o olhar, oferecer aos homens e mulheres uma leitura mais comprometida com a realidade.
Como Paulinos, somos chamados antes de tudo a deixar-nos curar também. Não podemos anunciar a luz se ainda caminhamos na penumbra. O carisma deixado pelo Beato Tiago Alberione nasceu para formar comunicadores capazes de ler os sinais dos tempos, de evangelizar através dos meios de comunicação e de ajudar a sociedade a discernir com responsabilidade.
Num país onde o acesso ao ensino é limitado e onde o livro, quase sempre, é um luxo, o apostolado paulino torna-se ainda mais urgente. O livro — seja impresso ou digital — continua a ser uma escola de liberdade interior, de crescimento humano e de formação crítica. A comunicação digital, por sua vez, transformou-se num campo missionário importante, sobretudo para alcançar os jovens, que muitas vezes estão expostos a conteúdos superficiais e vazios.
Diante das feridas sociais, não basta denunciar: é preciso iluminar. Hoje, alguns caminhos importantes para a missão paulina em Angola são:
- Educar para um olhar evangélico através da Palavra de Deus e de programas de formação bíblica e social;
- Dar voz aos que não têm vez, apresentando com verdade a vida das periferias e das famílias mais vulneráveis;
- Utilizar os meios de comunicação como espaços de responsabilidade social e não apenas de entretenimento;
- Formar comunicadores cristãos competentes, capazes de unir fé, ética e profissionalismo;
- Tornar o livro acessível às zonas mais pobres, como instrumento de dignidade e desenvolvimento humano.
E para todas essas iniciativas, é urgente um posicionamento institucional para com o futuro da missão em Angola para fortalecer a presença e projetar perspectivas sérias.
O milagre de Betsaida continua hoje na nossa história. Jesus continua a passar, a tomar pela mão a humanidade ferida, a conduzi-la para fora das rotinas que cegam, a tocá-la nos olhos com misericórdia. Contudo, Ele pede para ser acolhido. A cura não se impõe: brota de uma abertura interior.
Em Angola e no mundo inteiro precisamos deste segundo toque: um toque que cura o olhar, que transforma a forma como vemos o outro, que restabelece a consciência da dignidade humana.
Quando deixarmos de ver os homens como árvores e começarmos a reconhecê-los como irmãos, então a nossa missão reencontrará a sua luminosidade necessária. E a comunicação — como desejava o Beato Tiago Alberione — será realmente um ministério de luz no meio das sombras da história.
